Ele andava, pensando e se sentindo mal. Sentia-se fisicamente monstruoso. E era. Sempre andou por aí se fazendo de gente. Se comportava como gente: comia feito gente, bebia, estudava e conversava igual gente. Até amigos chegou a fazer. Aproveitou momentos de muita diversão, compartilhou projetos, gostos, notou até semelhanças. Sentia-se gente. Mas sabia. Lá no fundo sabia que segurava o xixi até em casa para evitar espelhos, passeava no shopping fitando o chão para fugir de tantos refletores. Sabia que todos viam sua monstruosidade. Sabia que era um tanto temido, um tanto evitado, um tanto incômodo. Um dia subiu na sua nave e partiu. Sem saber pra onde.
segunda-feira, 17 de março de 2014
terça-feira, 11 de março de 2014
domingo, 9 de março de 2014
"Desejo ser inexpressiva." Ela pensou enquanto soprava as velas do bolo de comemoração dos seus dezesseis anos. Há mais ou menos um ano o seu descontrole para expressão de emoções começara a lhe trazer problemas e as suas tentativas de esquivar-se das situações que a colocavam "em perigo" já foram todas frustradas. Sua última opção era acreditar no sobrenatural. Pediu a Deus, e nada. Foi aos umbandistas, e nada. Viu uma estrela cadente, até encontrou um trevo de quatro folhas, uma ferradura e um pé de coelho, pra garantir. E nada.
Ela só sabia que precisava se livrar desses músculos que tanto a entregavam ao se contorcerem em caretas extremamente vivas e quase falantes.
Tentou o quanto podia, enfrentou os confrontos das namoradas e amigos, chorou, sofreu, se escondeu por alguns anos. Chegou aos 23 e já não aguentava mais se desgastar emocionalmente. Com o bisturi da aula de anatomia que levara pra casa aquela tarde arrancou fora o tormento em forma de face. Ou pelo menos era o que pensava estar fazendo.