segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Urubus e pombos

     A vida se faz presente, mesmo que não a queiramos, mesmo que por muitas vezes a rejeitemos. Também a morte se impõe sobre nós, onipotente, carregando consigo todo o seu mistério que nos angustia e corrói. A vida dói, mas a desejamos por conhecê-la e, mais importante, por ter como única alternativa à ela a dissimulada morte. Ela nos ronda, sussurra suas delícias e dilemas, nos confunde com suas possibilidades, no ilude com paraísos e infernos, mas sempre, sem erro, nos encontra. E tudo morre.
     Morrem os dias, as semanas, os anos. Morrem os bichinhos de estimação, as borboletas, as árvores. Morrem os avós, os pais, os filhos. E a própria vida parece morrer, toda ela, dando a impressão de uma completa inexistência. Por dias, meses, anos (que não são dias, nem meses, nem anos), uma escuridão profunda domina todas as sensações, exige se perpetuar no que antes chamávamos de vida. Mas a vida também luta. A existência se busca, há uma não permissão para o não existir. No fim parece que não há fim, numa acumulação de fios de vida, memórias, amores. E nada morre.
     Pois que há de morrer quando ainda se tem amor? Ma há de se amar mesmo quando morre. Não quem morre, ou o que morre, mas quem fica. Não é possível se ausentar do amor, mesmo no luto - ou especialmente nele. Como é que se sente dor sem amar? Como é que se ama sem um dia doer? A morte presentifica-se em dor e amor, e se misturam tão intensamente, tão homogeneamente que é impossível fazer a separação. Assim como o início da vida, que se dá em prazer e desprazer, um prazer que vai se significando em bons sentimentos.
     Olha, se há um deus, ele é confuso, no mínimo. Ou complexo demais para que o entendamos. O crer seria reconfortante, e é para alguns. A não crença na infinidade da alma é agustiante, e torna a morte um fim, assim, sem saída. Porém um fim é sempre precedido de um começo e um meio. Então nos prendemos aos precedentes do ser amado, pra torná-lo eterno.

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

A big fuckin cock

Lá estava ela
E ele
Fingindo não se reconhecerem
Fugindo de se pertencerem

Lá estava ele
E ela
E eles iam
Além.

Ultrapassando seus pensamentos
Encontravam-se
Numa nuvem de água e fogo que se erguia
Acima.

Apossando-se de um direito que não tinha
Ele caminhava
E, da mesma forma imoral, 
Ela amava

Buscavam-se e afastavam-se
Numa eternidade de não ditos
Ela, nada
E ele fazia.

Não mais importava
Onde, quando, como
Ele fazia
E ela amava, mas se fazia

Na eternidade temporal
Ele se perdeu
E ela se meteu
No nada.

domingo, 10 de agosto de 2014

Pulsão

    Talvez o excesso de prazer cause desprazer em alguma medida. Tanto prazer me remete ao que falta, e a ausência é o nada que dói mais. Falta você no meu cenário, seu sorriso nos meus enquadres da câmera. Sua voz e sua graça na hora da canção. Falta você pra eu alcançar o Das Ding.
    Penso até nas coisas ruins que você me fez passar com saudade e carinho, com um sorriso nostálgico no rosto. Você, no fim das contas, não existe. É apenas um pequeno conjunto das minhas significações, e eu não significo bem. Quanto mais você me faz falta, mais colorido pinto seu retrato já dependurado na parede da minha memória.
    Pincéis sozinhos não colocaram na tela as cores de Frida Kahlo. Ela fez isso. Nos quadros estampam-se as cores, esbanja-se a beleza da criação, mas falta. As Fridas espalhadas por aí só revelam o quanto A Frida não está. E todas as suas representações bailando à minha volta, do meu lado, comigo e em mim só me lembram que você não está - e jamais estará novamente - perto de mim. 
    Então digo-te adeus. Um adeus que diz até logo.

domingo, 27 de julho de 2014

Same stupidity

You can hear my heart and my breath, you can feel the cold in my shaky hands. There's nothing I can do to hide my ridiculously exposed feelings. You hold me, only to make things worse, I think, and I cry. Clearly I won't stop anytime sooner. We can't live like that, we know. But we seem to don't care, since we're always doing the same terrible thing we always do: to love.

terça-feira, 22 de julho de 2014

Absoluta insanidade

Dei-te um golpe certeiro. O movimento do braço, a inclinação do punho, a pressão dos meus dedos no punhal da faca. Foi tudo cuidadosamente planejado pra que eu te acertasse em cheio no coração e você morresse imediatamente. Só havia uma falha no plano. Não previ o golpe retardatário reservado a mim. Sua morte fria e quase indolor golpeia-me a cada segundo que vivo, e por todos os furos um pouquinho de alma se esvai.Agora ainda me resta um pouco de sanidade no fio de alma preservada, mas logo ela se perderá e só terei agonia. Portanto agora uso toda a minha alma pra dizer-te: nunca deixei de te amar. 

quarta-feira, 16 de julho de 2014

Ele

Viu um pé de carambola que lhe lembrou a infância com acidez e doçura, como a fruta. Esse pé de carambola tem mais de dez anos, pensou, vendo a mesma senhora que devia ter noventa anos há mais de dez anos atras debruçada no mesmo muro de dez anos atrás, como fazia naquela época. Há tempos não voltava à sua terra, mesmo sempre estando lá. As carambolas, a senhora e o muro o fizeram regressar ao tempo de colégio, quando ele corria dos meninos maiores, tomava água da mangueira das donas de casa que lavavam as calçadas e falava com aquela senhora para subir em sua árvore e panhar as carambolas. Nem os meninos mais velhos, nem as donas de casa e nem a senhora se lembrariam dele, agora homem, de barba e terno. Mas não só por isso, aquela lembrança era dele, ninguém poderia lembrar-se dela. Teve vontade de ter dez anos de novo, ou pelo menos falar com a senhora debruçada no muro sombreado pelo pé de carambola. Mas hoje é covarde. Sabe de números, de teorias - da evolução, da conspiração, da relatividade -, de música, teatro, ações da bolsa de valores, de política. Mas não sabia de si. Perdera-se no conhecimento do mundo sem se lembrar da delícia de encher uma mochila de carambolas e carregar livros e cadernos nas mãos, do mal que a água da torneira nunca fazia, da emoção de ter medo de algo ou alguém e poder correr. Esquecera-se da doçura e da acidez de viver.

terça-feira, 15 de julho de 2014

Uma fresta no cinza

    Um pedaço triangular de azul na multidão tediosa de pessoas e coisas e intangíveis e invisíveis moléculas. Invisíveis e intangíveis também as pessoas e coisas, por mais consistentes e reais que sejam. É tudo um todo sem forma, como a Terra antes da Criação. E ali está o pequeno triângulo azul de possibilidades. É apenas uma visão do azul-escuro-acinzentado do céu da cidade. Mas pode-se ver sorrisos e conversas e amores, se mirar-se nele. Pode-se ver verdes e vermelhos e amarelos-solares. Pode-se sentir dores, temores, odores. Pode-se ouvir o canto dos seres celestiais ou o urro dos que rangem os dentes. Tudo no pequeno triângulo azul-celeste .
    Caio Fernando Abreu continua a falar das margaridas e a me conquistar. Talvez você fosse borboletas e margaridas, uma inspiração ou combinação delas. Talvez elas vivessem no seu interior e era esse órgão feito de borboletas e margaridas que fazia emanar de você tanta doçura e calma, tanto amor e intensidade. No início tão sutis que podiam passar desapercebidas. Mas depois, ah, depois você viveu consciente da vitalidade desse órgão, alimentando-o e deixando-se alimentar por ele. Delicado que era, o órgão das margaridas e borboletas parecia carecer de cuidado especial. Então você encarregou-se de mantê-lo vivo, saudável, impecável. 
    Mas margaridas e borboletas não alimentam o corpo, mas a alma. De borboletas e margaridas você majestosamente se fez. E por margaridas e borboletas, na visão dos outros, se dilacerou. E então se desfez. Tornou-se margaridas e borboletas, voou e flutuou para longe. E o que viram foi um corpo frio que tornariam em cinzas. E guardariam as cinzas se esquecendo do azul e do amarelo e do branco das borboletas e das margaridas invisíveis e intangíveis do seu interior.

segunda-feira, 14 de julho de 2014

Uma mistura de angústia e paz

     De repente tenho vontade de ter uma margarida pra dar a alguém na rua. Talvez não tão de repente a vontade da margarida, nem tão de repente a de encontrar alguém na rua que possa recebê-la. Mas a vontade de entregar uma margarida a alguém, essa é recente. Veio assim meio de repente, porque foi rápido no Cronos, mas não tão de repente porque parece que vem brotando há uma vida. A vontade e a margarida. Ela deve estar em algum lugar onde eu possa pegá-la e entregá-la talvez ao mesmo tempo, a margarida. A vontade cresceu e apareceu como se fosse de repente enquanto eu mergulhava numa história extremamente fantástica e comum de um homem que morre. Morre porque decide morrer e porque não há o que fazer senão morrer.
     Li mais cedo que a margarida seria um tantinho de angústia cercado de paz, com seu pequeno miolo amarelo e suas delicadas pétalas brancas. Caio Fernando Abreu que disse, em um conto que já não me lembro qual. Ando me esquecendo de muitas coisas mas você. Essa lembrança pulsante e latente da sua voz que está distante mas perto. Mais perto. Como o seu cheiro inconfundível e seu assobio que me lembra a inocência da infância com alegria e terror.
     A ignorância do futuro que nos deixa completamente vulneráveis acentua nossa pequenez diante de um criador que deve saber de todas as coisas mas não as muda porque é assim que deve ser. Pois que adianta voltarmos ao passado e tornarmo-nos então manipuladores ao invés de ignorantes ingênuos, eu me pergunto e respondo como desejo mas não como quero. Quero mesmo é ser manipuladora e viver confortavelmente em um todo controlado por mim. Mas a ingenuidade me encanta. Assim, como fadas e sereias e duendes. Um encanto com o brilho e com o inexistente, como se fosse transformar-me magicamente.
     Pois um dia  encontro a magia e talvez muitas margaridas cercadas de paz. Quem sabe eu as entregue a você numa rua repentinamente dominada por magia e inocência... e quem sabe você as receba e me abrace um abraço de angústia e paz como se não houvesse amanhã, pois saberemos que pode não haver, já que não houve há tanto tempo atrás.

sábado, 12 de julho de 2014

[des]prazer do amor e sexo

Nada como um orgasmo e um cigarro... depois uma bebida brindada já na expectativa de outro orgasmo, e outro cigarro, e então outra vez a mesma bebida, desfrutada com um alguém de corpo arqueado e quente na cama, um alguém amado ou não. O produto do sexo é o prazer, mas este tem sua duração limitada ao tempo do sexo, a não ser que haja amor, aí tudo se confunde. Amor e sexo acontecendo ao mesmo e tempo e fazendo perdurar o prazer por tempo indeterminado - ou desprazer, quando o amor é bruscamente interrompido, mas não acaba. Há desprazer no prazer de um amor impedido. Há prazer no desprazer de amar.

domingo, 29 de junho de 2014

No magnanimitatis

"I just need to relax", é o que eu fico dizendo pra mim mesma. Mas eu não quero, não consigo, não sei. Não sei não ser intensa, não ser um caso perdido, uma alma sofredora. Penso em brigas de casais, as pessoas sempre arrumam um jeito te trazer à tona assuntos que já estão encerrados, ou deviam estar. Acho que no fundo a parte atacada deve ficar um tanto brava e um tanto tocada pelo assunto ressuscitado. Mas isso não tem nenhuma importância pro meu atual dilema, ou não deveria ter. Sabe, eu deveria estar chapada pra escrever isso. Mas não estou. Acho que minha pala é mais racional e clara do que minha versão sã. Não interessa, se o que ela sente é raiva. Se o que eu sinto é raiva. Se o mundo tem raiva. Os animais não. Eles vivem como se tudo fosse sempre igual, como se sentimentos não nos estivessem invadindo a cada dia e nos destruindo internamente. Vivem igual. Acordam, comem, bebem. Latem, grunhem, piam, cantam. Querem atenção e comida, no máximo. No fim das contas, nós também. Mas que será essa comida? Quanto de atenção? Como? Onde está a nossa fonte de prazer? Ela existe? Aaah, como era mais fácil acreditar em Deus! Nesse Deus cristão, Todo-poderoso, Onipotente, Onisciente, Onipresente. Tudo em maiúsculo para honrar a Sua Grandeza. Nesse Grande Amor que está sempre por perto para me ouvir, me acolher, me dar o que eu quero desde que o que eu quero seja o que Ele quer. E agora, sozinha, o que eu faço? Quem vai me dar as respostas que Ele me dava? Era fácil ter as respostas porque existia um padrão a ser seguido e Ele me respondia de acordo com isso. Como eu faço pra obter as respostas, se agora elas não estão prontas? Agora eu lido com minhas decepções, minhas perdas, com o que parece ser uma maldição chamada amor. Agora eu vivo. Essa miserável vida que nos foi reservada por sabe-se-lá-quem. Vida cheia de egoísmo, mesquinhez, maldade, luxúria, paixão, cuidado, carinho, amor. Parece um crescente, indo dos contras aos prós, mas é? O amor é mesmo tão sublime, tão bom? Como sentimento, ele só fode. É o que eu tenho pra compartilhar.

sábado, 28 de junho de 2014

Epifania

Hoje eu acordei, como todos os últimos dias, vesti a mesma roupa dos últimos dias, comi a mesma comida. Assisti aos mesmos programas de tevê. Você me visitou em forma de lembrança. Lembrei que sonhei com você. No sonho você dançava pra mim, rebolava uma bunda que eu não lembrava ser sua, se insinuava pra mim como antes, mas era diferente. Agora eu sabia. Então você veio e eu pensei que te amo. Mas também que você perdeu seus direitos e você sabe disso. Você soube desde o início. Não pode mais me chamar de Pequena, nem dizer que me ama. E eu só soube hoje e te amei ainda mais (o que você era há cinco anos, pelo menos). Só hoje eu descobri que as pessoas perdem o direito de falar algumas coisas às outras. E respeitar isso é sublime.

terça-feira, 17 de junho de 2014

Inocente manipulado(r)

   No final sempre buscamos alimento. Sobrevivência. Sempre temos boas intenções querendo viver, mas a jornada machuca. Fere a nós e aos outros. Não há propósito, nunca há nenhum desejo além da narcísica busca de nós, individual, cada um buscando o seu eu. A procura, por si só, esmigalha. Sem intenção. Mas a existência de exceções atrapalha o sistema, faz emergir a feiúra - ou apenas a simples e normal realidade - do comum egoísmo. Estúpidos os que mostram completo desprezo pela ditadura da indiferença! Ignorantes que se mostram desinteressados em viver para si e por si! Lerdos, néscios, palermas. Ou podem ser apenas dissimulados, realçando suas minúsculas disposições altruístas para esconder a verdadeira, inerente natureza humana. 
   Não podemos discriminá-los, como fazemos com negros, gordos, magros, loiros, homens, mulheres, assim, à primeira vista. Então nos relacionamos, como é preciso fazer para alcançar tantas formas de satisfação que buscamos. Amamos, até - porque, sejamos sinceros, é possível amar nessa trilha egoísta -, e é aí que descobrimos o disparate do nosso ato. Néscios somos nós, entregues a esses malditos inocentes manipuladores.

sábado, 26 de abril de 2014

Não havia escolha para a grande bruxa Morgana. Ela tinha poderes, era bela e governava um reino, mas seu destino a esperava. Fracassaria. Como tantas vezes havia feito: com o relacionamento com a irmã, que passou a odiá-la; com a Religião Antiga, que não a admitiu como membro porque ela tinha sangue real; com o amante que fugiu quando a viu em sua verdadeira forma mágica... Agora estava grávida e certamente perderia o bebê no parto, quando ele estivesse quase nascendo. Era assim sempre. Quando quase conseguia alguma coisa, algo acontecia que a impedia de ser bem sucedida. Tentara até magicamente manter as coisas boas em sua vida, mas em vão. Havia uma profecia que a destinara a uma vida de fracassos, e assim ela vivia. Seu enorme poder de nada adiantara. Ela às vezes pensava que a profecia poderia não ser determinante pra sua vida, mas assumir o controle exigiria que assumisse também as responsabilidades pelos tamanhos erros. E isso ela não poderia suportar.

quinta-feira, 17 de abril de 2014

Eu penso coisas. E parece que as próprias coisas que eu penso pensam. Como se... meus pensamentos fossem autônomos! Fossem indivíduos. Criados por mim. E... pela sociedade. E... sei lá por quem mais. Deus. E aí eles se libertam da minha mente -ou tentam-, criando novos pensamentos eles próprios. 
Eu penso... em mim, aqui na cama, sentada como se eu fosse uma mulher das cavernas, comendo. E... olhando pra tudo ao redor como se fosse... tudo ameaçador demais. Como se tudo pudesse... me... comer, me matar, me machucar. Os meus pensamentos pensam que... é tão besta a existência deles próprios e eles começam a pensar que... nada é uma ameaça. Nada ao redor, pelo menos. Que a minha ameaça são eles! E eles decidem se mostrar bonzinhos (eles são legais), dizem que não vão fazer nada comigo, dizem que vão... mudar, vão ser diferentes. Que vão ser... se tornar bons pensamentos. Mas nunca acontece. Porque afinal eles acham que são livres, mas eu que controlo. E eu não sei fazer isso. Eu não sei controlar. 
Talvez Deus tenha passado por isso. Criado um monte de gente... que ele controla. E aí... ele descobre que não pode controlar. O que será que ele faria com... E ele não consegue nem matar! Seria bizarro isso. Coisas que se cria e que não se pode matar. Que não se pode controlar. E... existem! Vivem! Andam, sentem. Sofrem. Sofrem, inclusive, esperando um controle. Esperando ser controlados. E nada. Acho que é isso que acontece. Comigo, com todos os seres do mundo.

segunda-feira, 17 de março de 2014

Ele andava, pensando e se sentindo mal. Sentia-se fisicamente monstruoso. E era. Sempre andou por aí se fazendo de gente. Se comportava como gente: comia feito gente, bebia, estudava e conversava igual gente. Até amigos chegou a fazer. Aproveitou momentos de muita diversão, compartilhou projetos, gostos, notou até semelhanças. Sentia-se gente. Mas sabia. Lá no fundo sabia que segurava o xixi até em casa para evitar espelhos, passeava no shopping fitando o chão para fugir de tantos refletores. Sabia que todos viam sua monstruosidade. Sabia que era um tanto temido, um tanto evitado, um tanto incômodo. Um dia subiu na sua nave e partiu. Sem saber pra onde.

terça-feira, 11 de março de 2014

Nasce uma criança e ela chora. E ao crescer permanece chorando. Cresce mais e não cessa de chorar. Cada choro tem significado e obtém sentido. E está sempre inegavelmente ligado à dor.

domingo, 9 de março de 2014

"Desejo ser inexpressiva." Ela pensou enquanto soprava as velas do bolo de comemoração dos seus dezesseis anos. Há mais ou menos um ano o seu descontrole para expressão de emoções começara a lhe trazer problemas e as suas tentativas de esquivar-se das situações que a colocavam "em perigo" já foram todas frustradas. Sua última opção era acreditar no sobrenatural. Pediu a Deus, e nada. Foi aos umbandistas, e nada. Viu uma estrela cadente, até encontrou um trevo de quatro folhas, uma ferradura e um pé de coelho, pra garantir. E nada.
Ela só sabia que precisava se livrar desses músculos que tanto a entregavam ao se contorcerem em caretas extremamente vivas e quase falantes.
Tentou o quanto podia, enfrentou os confrontos das namoradas e amigos, chorou, sofreu, se escondeu por alguns anos. Chegou aos 23 e já não aguentava mais se desgastar emocionalmente. Com o bisturi da aula de anatomia que levara pra casa aquela tarde arrancou fora o tormento em forma de face. Ou pelo menos era o que pensava estar fazendo.

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Meu desejo tornou-se incontrolável. Larguei as aulas, o trabalho, a sanidade. Guardei por anos o dinheiro que meu pai me deixou, pra investir na minha vida. E agora ofereço-o aos poucos às mulheres que vêm e vão. Fico no quarto quase o dia todo, deitada, extasiada com o prazer que recebo. Encontrei o padrão das minhas mulheres, e agora contrato todas que se encaixam nele. É você que me come tão vorazmente a cada mulher que vem. Mesmo não sendo.

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Pense em "foda-se". O que você acha dessa expressão? Eu fico pensando. Será que alguém pensa como eu? (Hahahahaha a piada do "como eu" -ou "como você"- nunca acaba a graça) Porque foda-se é um palavrão? Acho que podia ser uma despedida de amigos tipo galera ta comendo ninguém, dando pra ninguém é aí eles vão embora é dizem: "ou, foda-se." O outro responde "Noh, mano, foda-se também!". Um desejado boa coisa ao outro, saca?
Só sei que vou dormir. Umas três horas apenas, mas vamo que vamo.

Sinto o calor como um corpo pesado sobre mim. E ele faz com que eu sinta cada vez mais todos os outros pesos que me atormentam; a confusão, os medos, as neuras e- pior- os amores. Minha cabeça se recusa a permanecer reta no pescoço... sinto-a mole, derretida como o sorvete que terminei.
Recuso-me a aceitar que não amo. Amo. Amo sim. Só não sei como.

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Não tenho memória da voz do meu pai. Hoje me lembrei que já faz quinze anos que ele morreu e tentei resgatar minhas memórias dele. Acho que algumas delas eu inventei há algum tempo e não sei mais que são inventadas. Tem uma especial que sei que é verdadeira, e a amo com todo o meu amor. Mas enfim, continuei pensando e concluí que é uma experiência interessante (ruim, mas interessante) não ter pai. Porque acabo idealizando-o ao extremo, e ele vira a melhor pessoa do mundo. Acho mesmo que meu pai era a melhor pessoa do mundo. Ele tinha todas as características que admiro em alguém, e eu nunca ouvi nada de ruim que ele tenha feito, nem nenhum defeito dele. Pra mim ele era perfeito. Ele era talentoso, desenhava muito, pintava quadros, fazia suas próprias molduras, construía móveis, saberia fazer uma casa. Era paciente, carinhoso, se importava com as pessoas. Era aventureiro, disposto, criativo, um pouco travesso. Ele fazia o que queria, e conseguia fazer as pessoas (que gostariam que ele fizesse algo diferente do que ele queria) aceitarem e até concordarem com isso. Meu pai me amava. Ele tinha apelidos lindos pra me chamar, não se sacrificava em vão. Era defensor da liberdade e da igualdade. Aceitava as diferenças, mesmo numa época em que "estava tudo bem" não aceitar. Batalhava por ele e pelos outros, se preciso. E esse é o meu pensamento de hoje. Triste, saudoso, inventivo, mas cheio de amor.

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Sometimes I think I prefer to live in denial. Mais uma vez fugi da terapeuta. Tão querida, tão disposta a me ajudar... E eu fugi. Não que eu não tenha tido um motivo real (tenho aula no único horário disponível dela), mas sei que to fugindo. Viver no meu mundo protegido pelas barreiras invisíveis da ignorância é muito mais fácil. Mais confortável do que trabalhar para destruí-las, para então encontrar mais barreiras, como o medo, a mentira, a solidão. É difícil lidar comigo.
Estou certa de que meu sistema límbico é danificado. E esse dano interfere na vida toda. Acho que ele faz com que os sentimentos e emoções se sintam donos do corpo, tentem dominar. E como são deficientes, fazem uma lambança em tudo. Mas estou divagando... (Como se todo o resto não fosse divagação..! Como se a própria vida não o fosse!)
Então "vamos seguindo acordando cedo", como diria a Vanessa. E com a vida, porque ela segue. Quer queiramos ou não.

domingo, 9 de fevereiro de 2014

Talvez seja mesmo lindo as fênix não morrerem. Só penso que os corações dos donos morreriam um pouco toda vez que elas se tornassem cinzas. E palpitariam sempre que renascessem. Como um coração poderia suportar tantas vezes a perda? E a ansiedade do renascimento..! Se algo desse errado a chance de dizer adeus já teria passado. E o fim sempre chega. Essa certeza é um tormento.

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Aaah, a ilusão de que a nova página vai ter um conteúdo melhor..! Que delícia esse gostinho de ansiedade! E pensando rimadamente, veio à cabeça "cidade" e com ela o pensamento do início da noite, que gostaria de me mudar daqui. Ir prum lugar novo, onde eu não tenha recordações de pessoas em cada cantinho da cidade. É estranho demais vagar por BH com uma enxurrada de memórias atacando, acalentando, levando a extremos a cada passo. Quero ir pro Acre! Pra Dinamarca, pro Chile, pra Butão. Quero ter a opção de sair pra esquecer quando eu quiser.
E a vida não é que não é ruim? É bom seguir assim, vivendo e querendo viver.

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Costas nuas

O tráfego é intenso
Me perco no olhar, sonhando
O cheiro me extasia
E a fantasia me faz mergulhar em um mundo só meu.
Boca e pele se misturam
Mãos, caras e sons me preocupam
E Vigotsky me chama de novo.

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

O seu sexo, no meu sexo
Tão semelhante
A sua mão, na minha mão
No seu sexo no meu sexo
O descontrole de amar
Gemer e gritar sem que nos ouçam
Com os olhos, com a contorção do corpo
É vida.
O seu sexo com o meu.