A vida se faz presente, mesmo que não a queiramos, mesmo que por muitas vezes a rejeitemos. Também a morte se impõe sobre nós, onipotente, carregando consigo todo o seu mistério que nos angustia e corrói. A vida dói, mas a desejamos por conhecê-la e, mais importante, por ter como única alternativa à ela a dissimulada morte. Ela nos ronda, sussurra suas delícias e dilemas, nos confunde com suas possibilidades, no ilude com paraísos e infernos, mas sempre, sem erro, nos encontra. E tudo morre.
Morrem os dias, as semanas, os anos. Morrem os bichinhos de estimação, as borboletas, as árvores. Morrem os avós, os pais, os filhos. E a própria vida parece morrer, toda ela, dando a impressão de uma completa inexistência. Por dias, meses, anos (que não são dias, nem meses, nem anos), uma escuridão profunda domina todas as sensações, exige se perpetuar no que antes chamávamos de vida. Mas a vida também luta. A existência se busca, há uma não permissão para o não existir. No fim parece que não há fim, numa acumulação de fios de vida, memórias, amores. E nada morre.
Pois que há de morrer quando ainda se tem amor? Ma há de se amar mesmo quando morre. Não quem morre, ou o que morre, mas quem fica. Não é possível se ausentar do amor, mesmo no luto - ou especialmente nele. Como é que se sente dor sem amar? Como é que se ama sem um dia doer? A morte presentifica-se em dor e amor, e se misturam tão intensamente, tão homogeneamente que é impossível fazer a separação. Assim como o início da vida, que se dá em prazer e desprazer, um prazer que vai se significando em bons sentimentos.
Olha, se há um deus, ele é confuso, no mínimo. Ou complexo demais para que o entendamos. O crer seria reconfortante, e é para alguns. A não crença na infinidade da alma é agustiante, e torna a morte um fim, assim, sem saída. Porém um fim é sempre precedido de um começo e um meio. Então nos prendemos aos precedentes do ser amado, pra torná-lo eterno.
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