Dizem que não se escolhe uma margarida em um campo cheio de rosas. Pois eu discordo, já me levantando e olhando ao redor, pra todas essas rosas igualmente pomposas, cheirosas, arrumadas, me olhando como se tudo o que eu quisesse fosse colhê-las. Escolho a margarida sem pestanejar. Tomo-a com toda a delicadeza que ela merece, e carrego-a perto do peito, onde o barulho é maior, mas o cuidado também. Escolho um belo lugar para plantá-la. Não no sentido da beleza física, estética, mas em todos os sentidos que o belo nos permite imaginar: aconchegante, com as exatas quantidades de sol, luz, vento. Um lugar para o qual vou sempre olhar e me flagrar com os olhos brilhando e o coração palpitando.
Sou humana, preciso confessar. Vez ou outra, me esqueço de regá-la, ou não dou a atenção necessária. Ela fica murchinha e me olha. Sim, ela é capaz de olhar. Na verdade, é capaz de muito mais que isso. Uma margarida vai em lugares que os olhos não alcançam; sua doçura penetra a alma, invade os cantos mais recônditos, com uma força e suavidade que só uma margarida ou o próprio amor poderiam descrever.
Então minha margarida me olha e me diz que me quer, que sente falta. Mas fala com suas pétalas brancas de paz, destacando o miolo de angústia, muito amarelo. Eu sofro, porque sei que não sei amar, e já disse. Mas amo. Amo numa intensidade que dói, num grau maior que o amarelo de seu miolo de sol.
Meu sol, minha margarida, meu amor. Me perco nas palavras porque não sei. Nem falar, nem amar, nem escrever. Nem sei muito de mim ou de você. Só sei de nós, que deveria ser. E será.
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