quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Não tenho memória da voz do meu pai. Hoje me lembrei que já faz quinze anos que ele morreu e tentei resgatar minhas memórias dele. Acho que algumas delas eu inventei há algum tempo e não sei mais que são inventadas. Tem uma especial que sei que é verdadeira, e a amo com todo o meu amor. Mas enfim, continuei pensando e concluí que é uma experiência interessante (ruim, mas interessante) não ter pai. Porque acabo idealizando-o ao extremo, e ele vira a melhor pessoa do mundo. Acho mesmo que meu pai era a melhor pessoa do mundo. Ele tinha todas as características que admiro em alguém, e eu nunca ouvi nada de ruim que ele tenha feito, nem nenhum defeito dele. Pra mim ele era perfeito. Ele era talentoso, desenhava muito, pintava quadros, fazia suas próprias molduras, construía móveis, saberia fazer uma casa. Era paciente, carinhoso, se importava com as pessoas. Era aventureiro, disposto, criativo, um pouco travesso. Ele fazia o que queria, e conseguia fazer as pessoas (que gostariam que ele fizesse algo diferente do que ele queria) aceitarem e até concordarem com isso. Meu pai me amava. Ele tinha apelidos lindos pra me chamar, não se sacrificava em vão. Era defensor da liberdade e da igualdade. Aceitava as diferenças, mesmo numa época em que "estava tudo bem" não aceitar. Batalhava por ele e pelos outros, se preciso. E esse é o meu pensamento de hoje. Triste, saudoso, inventivo, mas cheio de amor.

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