Eu penso coisas. E parece que as próprias coisas que eu penso pensam. Como se... meus pensamentos fossem autônomos! Fossem indivíduos. Criados por mim. E... pela sociedade. E... sei lá por quem mais. Deus. E aí eles se libertam da minha mente -ou tentam-, criando novos pensamentos eles próprios.
Eu penso... em mim, aqui na cama, sentada como se eu fosse uma mulher das cavernas, comendo. E... olhando pra tudo ao redor como se fosse... tudo ameaçador demais. Como se tudo pudesse... me... comer, me matar, me machucar. Os meus pensamentos pensam que... é tão besta a existência deles próprios e eles começam a pensar que... nada é uma ameaça. Nada ao redor, pelo menos. Que a minha ameaça são eles! E eles decidem se mostrar bonzinhos (eles são legais), dizem que não vão fazer nada comigo, dizem que vão... mudar, vão ser diferentes. Que vão ser... se tornar bons pensamentos. Mas nunca acontece. Porque afinal eles acham que são livres, mas eu que controlo. E eu não sei fazer isso. Eu não sei controlar.
Talvez Deus tenha passado por isso. Criado um monte de gente... que ele controla. E aí... ele descobre que não pode controlar. O que será que ele faria com... E ele não consegue nem matar! Seria bizarro isso. Coisas que se cria e que não se pode matar. Que não se pode controlar. E... existem! Vivem! Andam, sentem. Sofrem. Sofrem, inclusive, esperando um controle. Esperando ser controlados. E nada. Acho que é isso que acontece. Comigo, com todos os seres do mundo.
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