quarta-feira, 16 de julho de 2014

Ele

Viu um pé de carambola que lhe lembrou a infância com acidez e doçura, como a fruta. Esse pé de carambola tem mais de dez anos, pensou, vendo a mesma senhora que devia ter noventa anos há mais de dez anos atras debruçada no mesmo muro de dez anos atrás, como fazia naquela época. Há tempos não voltava à sua terra, mesmo sempre estando lá. As carambolas, a senhora e o muro o fizeram regressar ao tempo de colégio, quando ele corria dos meninos maiores, tomava água da mangueira das donas de casa que lavavam as calçadas e falava com aquela senhora para subir em sua árvore e panhar as carambolas. Nem os meninos mais velhos, nem as donas de casa e nem a senhora se lembrariam dele, agora homem, de barba e terno. Mas não só por isso, aquela lembrança era dele, ninguém poderia lembrar-se dela. Teve vontade de ter dez anos de novo, ou pelo menos falar com a senhora debruçada no muro sombreado pelo pé de carambola. Mas hoje é covarde. Sabe de números, de teorias - da evolução, da conspiração, da relatividade -, de música, teatro, ações da bolsa de valores, de política. Mas não sabia de si. Perdera-se no conhecimento do mundo sem se lembrar da delícia de encher uma mochila de carambolas e carregar livros e cadernos nas mãos, do mal que a água da torneira nunca fazia, da emoção de ter medo de algo ou alguém e poder correr. Esquecera-se da doçura e da acidez de viver.

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