segunda-feira, 14 de julho de 2014

Uma mistura de angústia e paz

     De repente tenho vontade de ter uma margarida pra dar a alguém na rua. Talvez não tão de repente a vontade da margarida, nem tão de repente a de encontrar alguém na rua que possa recebê-la. Mas a vontade de entregar uma margarida a alguém, essa é recente. Veio assim meio de repente, porque foi rápido no Cronos, mas não tão de repente porque parece que vem brotando há uma vida. A vontade e a margarida. Ela deve estar em algum lugar onde eu possa pegá-la e entregá-la talvez ao mesmo tempo, a margarida. A vontade cresceu e apareceu como se fosse de repente enquanto eu mergulhava numa história extremamente fantástica e comum de um homem que morre. Morre porque decide morrer e porque não há o que fazer senão morrer.
     Li mais cedo que a margarida seria um tantinho de angústia cercado de paz, com seu pequeno miolo amarelo e suas delicadas pétalas brancas. Caio Fernando Abreu que disse, em um conto que já não me lembro qual. Ando me esquecendo de muitas coisas mas você. Essa lembrança pulsante e latente da sua voz que está distante mas perto. Mais perto. Como o seu cheiro inconfundível e seu assobio que me lembra a inocência da infância com alegria e terror.
     A ignorância do futuro que nos deixa completamente vulneráveis acentua nossa pequenez diante de um criador que deve saber de todas as coisas mas não as muda porque é assim que deve ser. Pois que adianta voltarmos ao passado e tornarmo-nos então manipuladores ao invés de ignorantes ingênuos, eu me pergunto e respondo como desejo mas não como quero. Quero mesmo é ser manipuladora e viver confortavelmente em um todo controlado por mim. Mas a ingenuidade me encanta. Assim, como fadas e sereias e duendes. Um encanto com o brilho e com o inexistente, como se fosse transformar-me magicamente.
     Pois um dia  encontro a magia e talvez muitas margaridas cercadas de paz. Quem sabe eu as entregue a você numa rua repentinamente dominada por magia e inocência... e quem sabe você as receba e me abrace um abraço de angústia e paz como se não houvesse amanhã, pois saberemos que pode não haver, já que não houve há tanto tempo atrás.

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