Um pedaço triangular de azul na multidão tediosa de pessoas e coisas e intangíveis e invisíveis moléculas. Invisíveis e intangíveis também as pessoas e coisas, por mais consistentes e reais que sejam. É tudo um todo sem forma, como a Terra antes da Criação. E ali está o pequeno triângulo azul de possibilidades. É apenas uma visão do azul-escuro-acinzentado do céu da cidade. Mas pode-se ver sorrisos e conversas e amores, se mirar-se nele. Pode-se ver verdes e vermelhos e amarelos-solares. Pode-se sentir dores, temores, odores. Pode-se ouvir o canto dos seres celestiais ou o urro dos que rangem os dentes. Tudo no pequeno triângulo azul-celeste .
Caio Fernando Abreu continua a falar das margaridas e a me conquistar. Talvez você fosse borboletas e margaridas, uma inspiração ou combinação delas. Talvez elas vivessem no seu interior e era esse órgão feito de borboletas e margaridas que fazia emanar de você tanta doçura e calma, tanto amor e intensidade. No início tão sutis que podiam passar desapercebidas. Mas depois, ah, depois você viveu consciente da vitalidade desse órgão, alimentando-o e deixando-se alimentar por ele. Delicado que era, o órgão das margaridas e borboletas parecia carecer de cuidado especial. Então você encarregou-se de mantê-lo vivo, saudável, impecável.
Mas margaridas e borboletas não alimentam o corpo, mas a alma. De borboletas e margaridas você majestosamente se fez. E por margaridas e borboletas, na visão dos outros, se dilacerou. E então se desfez. Tornou-se margaridas e borboletas, voou e flutuou para longe. E o que viram foi um corpo frio que tornariam em cinzas. E guardariam as cinzas se esquecendo do azul e do amarelo e do branco das borboletas e das margaridas invisíveis e intangíveis do seu interior.
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